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A MARCA

 

Por: José Araújo* (Em 22 de Julho de 2026)

Não existe amor mais bonito, mais vivo e imortal que o amor de mãe. É um amor que não precisa de palavras para existir; um sentimento silencioso que é, antes de tudo, porto, conforto e paz.

Trata-se de um querer bem capaz de passar fome para ver o filho alimentado, de sentir frio para poder aquecê-lo. A mãe se esquece de si mesma na lembrança constante do ser que trouxe ao mundo. Por isso, quando ela parte, deixa uma presença que jamais cessa.

A lembrança traz a saudade do aconchego que se perdeu. Quando o mundo lá fora ruge na sua loucura habitual, por dentro um silêncio profundo — aquela saudade que inunda a alma e transborda em lágrimas pelas pálpebras.

E as coisas que ela usava? E as plantinhas que cuidava? Os detalhes de que tanto gostava e a própria casa em que morou? Quem ainda tem a mãe ao lado, talvez não consiga compreender totalmente o alcance disso. Não consegue ver nem perceber que essa ligação se manifesta em tudo ao redor e que o tempo não é capaz de apagar.

Deus quis assim. Deixou-nos uma marca no meio do abdômen para nos lembrar, em cada segundo da vida, desse elo sagrado que o tempo jamais conseguirá apagar.

 

*José Araújo é escritor, palestrante e Diretor Geral da Web Rádio e TV Terra Nova.

 

 

 

 

 

ARTE LITERÁRIA

Por: José Araújo* (Em 17 de Junho de 2026) 

       ​A literatura é a arte por excelência, sobretudo pela sua capacidade de permanecer no tempo. Diferente da música, da pintura ou da escultura, a palavra escrita conversa com o leitor de um modo tão íntimo que o transporta para dentro da narrativa. Faz-nos viver emoções, lugares e momentos tão verossímeis que, ao fechar o livro, sentimos uma irresistível vontade de voltar — ou uma doce melancolia pelo fim da viagem. Ao equilibrar a realidade e a ficção, muitos experimentam uma catarse tão profunda que as lágrimas brotam, enquanto a alma navega livre pelo universo do faz de conta.

​         A boa literatura nos conecta com o que há de mais humano em nós: a imaginação, o traço que nos distingue dos outros animais. É ela que nos permite não apenas sonhar com o maravilhoso, mas realizar e dar forma ao pensamento e à vontade, sempre guiados por uma grande ideia.

​        Neste contexto, amigo leitor — a quem agradeço pela preciosa atenção — compartilho uma história de amor. Este texto também faz parte do livro Turismo Rural: causos e contos do sertão goiano, de minha autoria, que agora divido com você.

 

QUEM É A MULHER QUE ELE AMOU

Nesse dia de sábado, como de costume, o jovem visitante encontrou o Pai João passando o café.

— Entra meu filho, como vai?

— Bem, Pai João. Como sempre querendo saber mais.

— Muito bom!

— Outro dia o senhor me contou uma história emocionante de um sonho que teve sobre o tempo de Jesus. Será que não teria outra como aquela para me contar? Sorrindo Pai João responde:

— Tenho sim, só que esse não foi um sonho, foi uma palestra que ouvi a uns 14 anos já, no Estado da Bahia quando estive a visitar os familiares que ainda estão lá.

— Que bom Pai João, estou ouvindo de bom gosto.

Sentando a mesa junto a costumeira visita matinal que o acompanhava no café quase diariamente começa a narrar.

Ouvi essa história na Mansão do Caminho, uma instituição de caridade mantida por um grande filantropo da cidade de Salvador na Bahia.

Dizia ele que naquela época havia uma jovem na cidade de Magdala, que atendia pelo nome de Maria, das moças com seus floridos quinze anos era a mais bela da região. Olhos azuis como o firmamento em dia claro. Trazia na alma um sonho de amor puro, onde pudesse dedicar sua vida a um sentimento que transbordava em esperança e ventura, essa doce perspectiva reinou em seu mundo íntimo até o contado da desilusão que a alcançou pelas mãos inescrupulosas de um fidalgo que a iludiu e abusou.

Desonrada pelos costumes patriarcais da época, tida como indigna das venturas de um lar, sem abrigo, ou amparo de qualquer gênero não lhe restou outra opção a não ser usar o corpo para suprir as necessidades urgentes de manutenção da vida, uma vez que não encontrou trabalho digno na cidade ou região, as matriarcas tinham receio de contratá-la pela paixão que poderia despertar nos companheiros.

Em pouco tempo, com o cortejo de clientes abastados que a presenteava com verdadeira fortuna, estava às vésperas dos 21 anos de idade entre as mulheres mais ricas da região, mas também entre as mais infelizes! Sentia no íntimo um vazio indefinível, uma tristeza que a fazia desacreditar do sonho de infância de conhecer o verdadeiro amor.

As poucas notícias que tinha da existência de Jesus a fazia fervilhar a mente, que poderia ajudá-la a vencer a desventura existencial, a reencontrar o sentido da vida de outrora, seu coração sensível enchia-se de esperança, buscando no horizonte como uma oração silenciosa a possibilidade de viver esse encontro e uma nova vida.

Passados alguns meses, tem a notícia que Jesus passaria por Magdala, espera ansiosa sua chegada, mais como o conheceria? Quem seria ele? Não seria outro a iludir o coração? Dúvida, ansiedade e euforia tomava conta dela.

Ao saber que Ele entrava na cidade, foi ao seu encontro, mais não teve sucesso em vê-lo, voltou decepcionada a ampla e confortável casa que mantinha na região alta da cidade onde também recebia seus convidados para os banquetes, entre eles, príncipes, nobres e diversas personagens do alto clero da época.

Ao entardecer avista uma pequena comitiva de homens simples, que parecia cortar a cidade em direção desconhecida, no meio deles um rosto familiar para ela, de longe seu coração acelerou, então adivinhando que poderia ser o mestre vai ao seu encontro e diz:

— Nazareno! Sei que tu és nazareno, pela moda que tens os cabelos e as vestes, deves estar cansado pois viestes de longe, sei que vens de longe, pois trás os pés empoeirados do caminho. Nazareno quero te convidar a minha casa para que possa se lavar e descansar do caminho. Jesus permanece em silêncio. Olha em seus olhos claros, iluminados por um amor desconhecido até então, mais almejado desde a infância. Ansiosa por uma resposta positiva, reforça o convite com mais ênfase.

— Nazareno belo, venha aos meus aposentos, hoje é  meu aniversário e darei uma festa! Venha! Você é meu convidado. Então o mestre, com a paz e suavidade habituais responde.

— Não posso.

— Nazareno! Venha! Insiste Maria de Magdala. Terei príncipes, reis, legionários em meu jantar e Tu será meu convidado de honra. Jesus mantém o silêncio. Mais aflita pela recusa, ela continua.

 — Colocarei duas escravas nuas a dançar para ti e não te pedirei nada. Venha!

— Hoje não posso! Mas eu irei.

Então Maria entristecida deixa o grupo que seguiu pelo caminho, guardando na alma a imagem do homem mais bonito que ela já viu em toda vida, e o dia que ele iria retornar.

Passaram-se os anos e Jesus não retornará. Todos os dias no mesmo horário aguardava a volta daquele que para ela era o ser que ela amava desde a infância sem ao menos conhecer, mas sabia que existia.

Perdera o gosto pelos festejos, depois daquele dia, não recebeu mais ninguém em sua casa, por mais tentadores que fossem os presentes e apelos, recusava todos. Muitos achavam que ela havia perdido o juízo por recusar príncipes e senhores da alta sociedade e porque não mais dava as festas que tanto alegram os patrícios.

Em pouco tempo foi acometida pela lepra, que somada à depressão persistente a fez pobre novamente, abandonada por todos, menos por uma amável serva que a tinha em conta de filha muito amada.  Esvaiu-se sua beleza, fugia da presença de todos. Então certa vez estava Jesus novamente pregando na cidade de Magdala e chegou alguém a seu ouvido e disse algo. De pronto Ele respondeu:

— Hoje eu vou! Pergunta onde ela está e a serva amada indica o caminho. O mestre caminha por uma trilha pedregosa, coberta por lodo e espinhos até chegar à entrada de uma caverna. Percebendo que alguém se aproximava, Maria grita tresloucada do fundo da caverna.

— Vá embora! Não tenho mais o que procuras! Vá embora, acabaram os perfumes, o carinho, minha saúde. Chora convulsivamente. Jesus ignorando os apelos entra na caverna escura, considerando o odor desagradável, o contraste do sol externo com o frio e a escuridão do local causa vertigem, vai apalpando as paredes da caverna e a encontra finalmente tocando em sua cabeça purulenta, ao ponto que sente os cabelos a soltarem em suas mãos. Maria de Magdala, percebe pelo perfume ser o homem amado de seus sonhos e sua dor aumenta.

— Nazareno belo! Tu vieste, porque demoraste tanto, é tarde para nós, já não tenho mais saúde, veja o que os homens fizeram comigo. Te desejei noite e dia, minha vida não fez mais sentido depois que foi embora. Agora é tarde para nós, por favor me deixe! Vá embora!

Jesus sem dar uma palavra, a encosta no peito magro e forte e a leva para fora. Ela quase desfalecida, tinha a pele apodrecida pela lepra, com feridas purulentas e fétidas por todo corpo. Fecha os olhos azuis em reação à luz solar daquela tarde clara e triste. Jesus com seu amor incomparável tira a mão dela do rosto que tentava esconder a todo custo e diz:

— Eu disse que viria, já que teu corpo não te serve mais para nada, dê-me a tua alma. Porque eu também te amo!

Maria profundamente emocionada, grossas lágrimas correram por seu rosto, retira das últimas forças vitais a tentativa de um sorriso e falece nos braços Dele.

— Nossa Pai João! Obrigado, vou contar aos quatro ventos essa belíssima história.

—  Conte meu filho é preciso que o mundo saiba.

 

 

*José Araújo é escritor, palestrante e Diretor Geral da Web Rádio e TV Terra Nova.