Em um avanço promissor para a medicina e para o combate global à doença, pesquisadores brasileiros da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriram como desativar o mecanismo central que permite a multiplicação e a proliferação do câncer pelo organismo. O estudo, financiado pela FAPESP, CNPq, Capes e Finep, foi publicado no periódico científico internacional Cytotechnology.
A descoberta envolve uma proteína presente na superfície das células chamada SDC4 (sindecam-4). Ao utilizarem técnicas de engenharia genética para "silenciar" essa molécula em laboratório, os cientistas acionaram uma espécie de freio biológico: além de interromper a divisão desordenada do tumor, a técnica eliminou o "escudo" que permitia às células cancerígenas sobreviverem soltas pelo corpo, neutralizando a principal engrenagem que facilita as metástases.
O Mecanismo Desvendado: A Morte por "Falta de Casa"
No corpo humano saudável, quando uma célula normal se desprende do seu tecido de origem, o organismo ativa um programa automático de autodestruição denominado anoikis (termo de origem grega que significa "morte por falta de casa"). Trata-se de uma defesa natural do corpo para impedir que células perdidas se instalem em locais indevidos.
No entanto, nos tumores mais agressivos, o câncer subverte essa defesa. As células cancerígenas passam a produzir a proteína SDC4 em quantidade exagerada (superexpressão). Esse excesso funciona como uma armadura que protege a célula doente da anoikis, permitindo que ela viaje pela corrente sanguínea e colonize outros órgãos — o devastador fenômeno da metástase.
Como Funciona o "Freio Biológico"
Ao bloquearem e desligarem o gene da SDC4, os pesquisadores observaram dois efeitos imediatos e decisivos:
Reativação da autodestruição: Sem a proteção da SDC4, as células invasoras voltaram a depender da aderência aos tecidos para viver, perdendo sua malignidade e sendo eliminadas pelo processo natural de anoikis.
Paralisação do crescimento: O silenciamento da proteína elevou no interior da célula a produção da p27, uma molécula inibidora natural do ciclo celular que "trava" o ritmo de divisão do tumor.
"Nosso estudo mostra que a SDC4 pode se tornar um alvo terapêutico promissor e servir como marcador diagnóstico para acompanhar a progressão de tumores. A estratégia de silenciar essa molécula tem potencial para impedir a proliferação de células cancerosas, mas ainda estamos em fases iniciais da pesquisa e seria necessário validar os resultados em cada caso específico da doença", explica a Profa. Dra. Carla Cristina Lopes, do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp e autora correspondente do estudo.
Fontes: Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) / Agência FAPESP / Periódico Cytotechnology
Da Redação.